31 de março de 2011
Censurado
cru da existência,
ornada a chamada
vida pelo pretenso
- e no entanto fátuo –
cintilar das pétalas de
orquídeas miseráveis
– pelo vislumbre
de uma paisagem cujos
contornos se dissolvem
ao tato.
Não é espantoso
perceber que o canto
fatigado se dissipa
entre as muitas vozes
que o entoam
- e que o calam:
o alarido permanece.
E em seu ruído,
o desespero, pronunciado
em alegorias e em falsas verdades.
O alarido permanece.
E em seu ruído,
a ruína de toda uma nação.
21 de setembro de 2010
Adolescência
Este blogue começou dum
de românticos cantos
24 de agosto de 2010
Verão
num dia só pro mês inteiro
As goteiras escorrem cachoeiras
os telhados ameaçam ruir.
Não há salvadores com espadas desempainhadas prontos para o combate.
há um moleque que banha na chuva
um moleque maranhense que banha na chuva.
Ê, chuva torrencial
preces a São Pedro
e todo ano se repete a mesma coisa.
- Num dia só pro mês inteiro!
23 de agosto de 2010
mosca na sopa
numa torrente de abstrações indefiníveis e portanto
inimagináveis para os homens de meu tempo. seguido
por um golfo negro vermelho e amarelo de sujeira sangue
e pus onde se deita cansada a cara do mundo respirando
o desejo ancestral de explodir-se num grande e interminável
gozo.
meu número é 016482572001-5 e eu sou mais um entre tantos
rostos anônimos cujo único aspecto que conhecemos é o teor
cadavérico de suas sentenças explicativas. não desejo além do
comercial da televisão. todas as minhas expectativas se resumem
em consumir a degradação de minha espécie em singelas prestações.
obsessivos desmandos me constituíram uma classe inferior, mero
produto do estilo de vida consumista. sou só mais um entre tantos
números, tatuado com a marca da civilização e suas emoções mesquinhas.
apenas um conceito de cidadania passiva que se abriga numa caixa,
entediado com sua condição de excessiva subserviência e preguiçoso
por ter engolido toda a merda que cuspiram em cima de mim. sou só
mais um para não ser ninguém, ser enganado e morrer de raiva deitado
no sofá da sala com a tv ligada.
17 de junho de 2010
Dois poemas ludovicenses
I
Ao som de tiros na calada da noite, de gritos de fome nos sinais, o teu canto de morte e miséria foi cantado. Há muito o teu povo te suplica: tem pena de mim, São Luis, tem pena de mim! E continuas cantando, afogando lares em pobreza, enterrando jovens no crime... Nas noites de domingo, quando a cidade dorme, sinistros leões saem às ruas à caça de seu alimento: são como envoltos numa nuvem de sonhos, rápidos o suficiente para jamais serem notados. Alimentam-se unicamente de nossa bondade, de nossa inocência e grandeza de espírito; e em seguida vomitam torrentes de lixo e desgraça em nossa garganta; engasgamos, não queremos engolir... mas, já é tarde. E o produto grotesco da putrefação de nossos antigos valores é engolido... Eis o nosso pão de cada dia, eis o que nos sustém e o que nos torna cada vez mais miseráveis e dignos de pena...
II
Agarrada aos teus cabelos
a imagem delicada da destruição
de tuas belezas, o deslumbre
de tua morte suave.
O teu corpo de matas foi invadido,
Derrubado e afogado num
Mar de ferro e concreto;
Nas tuas veias injetaram
A podridão de toda uma
Geração desfeita em ideologias
Vazias, alienada pelas infâmias
Da mídia de massa...
E hoje são os rios de esgoto,
Causadores do teu esfacelamento,
Do teu horror e de tua desgraça
Que te desenham. Entupiram
Cada artéria tua e a tua espera
É já sem ânsia pela morte que
Te espreita...
Mas, não te entrega
Sem uma última batalha,
Sem uma última revolta contra
Os leões que te consomem...
Livra-te dos grilhões que te
Prendem ao solo, põe a faca
entre os dentes, arranca esses felinos
De seus tronos e rasga-lhes as
Gargantas... Deixa escorrer o sangue
Por sobre seus mantos de seda
E te deleita com esse momento,
Pois será este, São Luis, o símbolo
Máximo da tua vitória.
14 de fevereiro de 2010
25 de janeiro de 2010
o último vaticínio
e suas areias escorrem,
suaves em seu derramamento.
o Tempo passa com pés ligeiros
e nos pisa, nos esmaga,
e nós, homicidas de nossas verdades,
inquisidores de nossa fugacidade,
curvamos a cabeça,
e esperamos pacientemente
por uma absolvição
que jamais virá.
nunca fomos livres
e, não obstante, nunca nos sujeitamos
às ordens ditadas.
a Natureza criou suas leis
sabendo que iríamos ignorá-las.
toda a vida da humanidade
é baseada em ilusões,
em tentativas frustradas
de mascarar sua pequenez
com o orgulho de um fátuo
poder que nós mesmos
nos concebemos e, no imo,
sabemos não ter.
acabaremos, por fim,
e toda nossa arquitetura do vazio
se dissolverá em doces rosas
que sequer lembrarão nossa existência ínfima.
o único legado deixado será
não ter deixado legado algum.
a memória do mundo
é perspicaz em vingança
e esquecimento.
acabaremos, enfim... acabaremos.
e toda nossa arquitetura de vazio
se dissolverá em doces rosas
que sequer lembrarão nossa existência.
14 de novembro de 2009
Ludovicense
e em tuas navalhas
encharcadas de sangue
sempre fresco, São Luís,
adormeci, sonhei e te
criei num punhado de pó
soprado ao vento.
(Da minha cama,
as prostitutas nas esquinas,
os vagabundos nos sinais...)
A cola e o craque
te consumiram em
lento deleite: afogaram
os teus mares, roubaram
o teu Boi-Bumbá.
Perdi-me uma vez
entre as tuas lendas,
teus poetas e tuas
belezas... E agora,
São Luís, e agora?
Agora,
fácil é perder-se
na vertigem das
mazelas que deflagram
a miséria em cada
rua que te corta,
te destrói e que te forma.
A Cidade sobreviverá?
Ou só a sombra do que
um dia fora?
São Luís há de ter salvação...
e dissolver no tempo
a maldição que lhe fora
rogada, sob a égide
de seu povo, calcinado
nas lápides das antigas oligarquias...
28 de outubro de 2009
Vale Festejar
as portas
da casa
de Nagô.
Serpente,
acorda,
que o dia
já raiou.
Pega pandeirão,
zabumba, matraca...
Vai começar
o Bumba-Boi.
Depois, Tambor
de Crioula,
Dona Teté
e o seu
Cacuriá.
Se é festejo,
vale festejar.
Vamos celebrar
o bater de asas
dos novos
Pássaros
que nascem,
cujos piados,
assovios,
unem-se
num canto
único – concerto
que emudece
a Alvorada
e, finalmente!,
no Maranhão,
acorda
o Amanhã.
22 de outubro de 2009
Ah não, Bandeira!
talvez um ébrio habitual,
me catequize o novo dialeto.
Fecho os livros, os olhos...
RELATIVAMENTE INCAPAZES!
Minha’lma sim!,
vê um homem
afogado em sua desgraça.
Sem flores ou floreios.
Desgraça.
Nada como a desgraça em Chico, não?
Doce e lírica...
Mas se bem me parece,
o homem antes mergulhara
numa garrafa antilírica.
E tanto ajudava o motorista ao acelerar brecar bruscamente...
E tão amargos eram os risos ecoantes quando se desfigurava no piso imundo...
Aonde leva a condução?
Desequilibrados! Desequilibristas!
Todos rumo ao mesmo destino.
Ah não, Bandeira,
minha’lma insiste em ver homens...
Desgraça!
15 de outubro de 2009
Surra de chicote
lhes peço um novo matiz
para repintar o mundo,
por favor, o colorido
de uma tintura forte,
pra limpar essa sujeira,
sou logo recriminado.
Caso fale em maldição
soará exagerado?
Que hei de dizer, então,
dumas duas chibatadas
que o bom rabo de tatu
a esse Preto beiçola
me serão presenteadas?
Deixar de querer ser besta
e esquecer essa história?
Me parece sensatez
ao menos findar debate.
7 de outubro de 2009
Filhos da puta
errado
quando
dizem
certo
O futuro
no chão
um livro
aberto:
as folhas
rasgadas
mastigadas
As letras
palavras
vomitadas.
Nos palanques
tribunais
nas
catedrais
pessoas boas
são sempre
marginais
Cuspindo
merda
estão
os filhos
da puta
os malditos
filhos
da maldita
puta.
Pior
saber
que o
ciclo
não tem
fim...
Tem sempre
uma puta
parindo
por aí!
7 de setembro de 2009
Parte I - Do Alto da Bela-Vista
20 de agosto de 2009
CANCELAMENTO DO SARAU
15 de agosto de 2009
delírio em prosa
9 de agosto de 2009
trombadas, marginais e afins
filhos sem pai
nem mãe.
dejetos da sociedade:
guardam em si
a podridão
da nossa volúpia.
nossa mudez
é escárnio,
piada de humor
questionável.
nossa mudez
é desdém.
nossa mudez
é sinônimo
de estupidez.
4 de agosto de 2009
Condução
27 de julho de 2009
A Vida de Esther - O Nascimento

Aos que vivem seus dias de forma igual, aos que esperam o amanhã, aos que apenas vivem, a eles dedico esta história.
Tudo aquilo que buscamos está escondido em cada um de nossos desejos, ocultos, opacos. Poucos são aqueles que desejam de forma clara, que sabem o que buscam e seguem em frente, à procura. Coube a ela, oculta no nome, estrela em vida, mostrar aos seus que ninguém era dela, pois a ela só pertencia o agora.
Esta é a vida de Esther.
Nasceu coroada, sob os olhares daqueles que viriam cultuá-la. Nasceu já incomodada com a atenção que lhe era ofertada, mesmo por tão pouco. "Como é linda, a pequena Esther!", alguém dizia. Seus olhos azuis, de soberba celestialidade, roubavam exclamações unânimes. O fascínio que a pele rosada e aquele par de céus-enormes-redondos causavam era justificado apenas pela necessidade daquelas pessoas de esquecerem seus próprios defeitos e apegarem-se àquilo que poderiam ser. Mas Esther sabia que o que elas esqueciam era, na verdade, de suas próprias qualidades, daquilo que as diferenciava e as tornavam únicas e, por que não, igualmente invejáveis. É engraçado – e ao mesmo tempo triste – como, na vida, tanto tempo é dedicado a aplaudir o espetáculo alheio, esquecendo-se do próprio show. As vidas passam coadjuvando a arte de outros tantos coadjuvantes. Sem o artista não há show! Não há Oscar! E alguém tem que reinar.
Embora coroada, Esther nunca quis ser rainha. Jamais suportou a falsa simpatia de seus amigos de oportuna-hora, muito menos a pomposa inveja de quem lhe parecia menor. Percebeu desde muito cedo que sorrir já significa agradar, não mais agradar-se.
Todo pequeno sinal que pode ser captado no dia-a-dia acaba por construir aquilo que os homens são, aquilo que os ergue e fortalece, ainda que, vagarosamente, aconteçam esses processos. Não dar valor ao tato, não sentir cada pequena fragrância, não ouvir cada bom-dia e não responder ao cumprimento, tudo isso faz com que a vida seja um passeio displicente pelo parque no caminho de ida e volta da escola. É um caminhar cabisbaixo pela irresponsável maneira como os homens conduzem seu fado, como se deixam ser conduzidos.
O primeiro sinal que Esther percebeu - talvez não na ocasião, mas com certeza no decorrer de sua vida - foi que a dor significa estar vivo. É preciso experimentar a dor, é necessário chorar para que os pulmões encham-se com o ar da existência, para sorrir, depois caminhar, correr, pular e, então, cair e chorar novamente e, assim, se reabastecer deste ar. É necessário conhecer o céu e o inferno para ter certeza de que o céu é melhor. Sem a dor não há o gosto - dormente se fica a ponto de furar os próprios olhos e nem sequer perceber como parou de ver.
O que muitos não sabem é que conhecer a dor não significa querer encontrá-la. Dizem que a melhor forma de encontrar algo do qual se passará a vida fugindo é evitando-o. E assim Esther conduziu seus passos. Andou em caminhos que eram ditos seguros, que sabia que a levaria para o leito calmo de um rio, não para um precipício. O balé é um desses caminhos. Leve, suave, delicado. Até as quedas são parecidas com a queda de uma pena ao vento. Então Esther se perguntou:
- Como sinto meu coração?
A sensação do colidir, o pulso acelerado, a boca tentando silenciar a pulsação. Nenhum desses prazeres pode ser encontrado fugindo da dor. É preciso encará-la de fato, ir à sua caça. "Estás louco!", diria ela se pudesse me ouvir. O que ela ainda não compreendia era o espaço que nos separa de nossos medos: ir atrás da dor não significa cumprimentá-la.
Voe, pequena Esther. Esqueça o rio, corra ao precipício. Abra os braços, sinta o vento e o coração bater. Não é o medo de cair: é o estar vivo. Descalce a sapatilha e sinta a terra entre os dedos. Adoeça, chore, quebre a cara, mas, antes, tente! Tente ir atrás do outro lado, da recompensa. Acabe no inferno, buscando o céu, mas não espere que ele desabe buscando você.
E assim nasceu Esther: banhada com o ouro pesado das aparências para purificar-se depois. O homem nasce defeituoso e a vida o conserta. Ou não...
24 de julho de 2009
Não desesperanço
dêem licença poética
de aqui salvar
Nem tudo tá perdido
flameja o peito
quando em ímpeto surge
a indignação
Analfa de parte pai
beto de parte de mãe
sou povo igual ao povo
em segunda geração
'Dotô' felpudo
metido a salvador
mediatamente também me
enganou
Mas queira Deus queira não
a situação cambiará
Dotô tá velho e os Brancos a gente abafa
Não desesperanço
Maranhão há de valer festejar -
de verdade.