sábado, 14 de novembro de 2009
Ludovicense
Em teus becos
e em tuas navalhas
encharcadas de sangue
sempre fresco, São Luís,
adormeci, sonhei e te
criei num punhado de pó
soprado ao vento.
(Da minha cama,
as prostitutas nas esquinas,
os vagabundos nos sinais...)
A cola e o craque
te consumiram em
lento deleite: afogaram
os teus mares, roubaram
o teu Boi-Bumbá.
Perdi-me uma vez
entre as tuas lendas,
teus poetas e tuas
belezas... E agora,
São Luís, e agora?
Agora,
fácil é perder-se
na vertigem das
mazelas que deflagram
a miséria em cada
rua que te corta,
te destrói e que te forma.
A Cidade sobreviverá?
Ou só a sombra do que
um dia fora?
São Luís há de ter salvação...
e dissolver no tempo
a maldição que lhe fora
rogada, sob a égide
de seu povo, calcinado
nas lápides das antigas oligarquias...
e em tuas navalhas
encharcadas de sangue
sempre fresco, São Luís,
adormeci, sonhei e te
criei num punhado de pó
soprado ao vento.
(Da minha cama,
as prostitutas nas esquinas,
os vagabundos nos sinais...)
A cola e o craque
te consumiram em
lento deleite: afogaram
os teus mares, roubaram
o teu Boi-Bumbá.
Perdi-me uma vez
entre as tuas lendas,
teus poetas e tuas
belezas... E agora,
São Luís, e agora?
Agora,
fácil é perder-se
na vertigem das
mazelas que deflagram
a miséria em cada
rua que te corta,
te destrói e que te forma.
A Cidade sobreviverá?
Ou só a sombra do que
um dia fora?
São Luís há de ter salvação...
e dissolver no tempo
a maldição que lhe fora
rogada, sob a égide
de seu povo, calcinado
nas lápides das antigas oligarquias...
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Vale Festejar
Abriram-se
as portas
da casa
de Nagô.
Serpente,
acorda,
que o dia
já raiou.
Pega pandeirão,
zabumba, matraca...
Vai começar
o Bumba-Boi.
Depois, Tambor
de Crioula,
Dona Teté
e o seu
Cacuriá.
Se é festejo,
vale festejar.
Vamos celebrar
o bater de asas
dos novos
Pássaros
que nascem,
cujos piados,
assovios,
unem-se
num canto
único – concerto
que emudece
a Alvorada
e, finalmente!,
no Maranhão,
acorda
o Amanhã.
as portas
da casa
de Nagô.
Serpente,
acorda,
que o dia
já raiou.
Pega pandeirão,
zabumba, matraca...
Vai começar
o Bumba-Boi.
Depois, Tambor
de Crioula,
Dona Teté
e o seu
Cacuriá.
Se é festejo,
vale festejar.
Vamos celebrar
o bater de asas
dos novos
Pássaros
que nascem,
cujos piados,
assovios,
unem-se
num canto
único – concerto
que emudece
a Alvorada
e, finalmente!,
no Maranhão,
acorda
o Amanhã.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Ah não, Bandeira!
Um cambaleante toxicômano,
talvez um ébrio habitual,
me catequize o novo dialeto.
Fecho os livros, os olhos...
RELATIVAMENTE INCAPAZES!
Minha’lma sim!,
vê um homem
afogado em sua desgraça.
Sem flores ou floreios.
Desgraça.
Nada como a desgraça em Chico, não?
Doce e lírica...
Mas se bem me parece,
o homem antes mergulhara
numa garrafa antilírica.
E tanto ajudava o motorista ao acelerar brecar bruscamente...
E tão amargos eram os risos ecoantes quando se desfigurava no piso imundo...
Aonde leva a condução?
Desequilibrados! Desequilibristas!
Todos rumo ao mesmo destino.
Ah não, Bandeira,
minha’lma insiste em ver homens...
Desgraça!
talvez um ébrio habitual,
me catequize o novo dialeto.
Fecho os livros, os olhos...
RELATIVAMENTE INCAPAZES!
Minha’lma sim!,
vê um homem
afogado em sua desgraça.
Sem flores ou floreios.
Desgraça.
Nada como a desgraça em Chico, não?
Doce e lírica...
Mas se bem me parece,
o homem antes mergulhara
numa garrafa antilírica.
E tanto ajudava o motorista ao acelerar brecar bruscamente...
E tão amargos eram os risos ecoantes quando se desfigurava no piso imundo...
Aonde leva a condução?
Desequilibrados! Desequilibristas!
Todos rumo ao mesmo destino.
Ah não, Bandeira,
minha’lma insiste em ver homens...
Desgraça!
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Surra de chicote
Se em discurso a meus amigos
lhes peço um novo matiz
para repintar o mundo,
por favor, o colorido
de uma tintura forte,
pra limpar essa sujeira,
sou logo recriminado.
Caso fale em maldição
soará exagerado?
Que hei de dizer, então,
dumas duas chibatadas
que o bom rabo de tatu
a esse Preto beiçola
me serão presenteadas?
Deixar de querer ser besta
e esquecer essa história?
Me parece sensatez
ao menos findar debate.
lhes peço um novo matiz
para repintar o mundo,
por favor, o colorido
de uma tintura forte,
pra limpar essa sujeira,
sou logo recriminado.
Caso fale em maldição
soará exagerado?
Que hei de dizer, então,
dumas duas chibatadas
que o bom rabo de tatu
a esse Preto beiçola
me serão presenteadas?
Deixar de querer ser besta
e esquecer essa história?
Me parece sensatez
ao menos findar debate.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Filhos da puta
Tá tudo
errado
quando
dizem
certo
O futuro
no chão
um livro
aberto:
as folhas
rasgadas
mastigadas
As letras
palavras
vomitadas.
Nos palanques
tribunais
nas
catedrais
pessoas boas
são sempre
marginais
Cuspindo
merda
estão
os filhos
da puta
os malditos
filhos
da maldita
puta.
Pior
saber
que o
ciclo
não tem
fim...
Tem sempre
uma puta
parindo
por aí!
errado
quando
dizem
certo
O futuro
no chão
um livro
aberto:
as folhas
rasgadas
mastigadas
As letras
palavras
vomitadas.
Nos palanques
tribunais
nas
catedrais
pessoas boas
são sempre
marginais
Cuspindo
merda
estão
os filhos
da puta
os malditos
filhos
da maldita
puta.
Pior
saber
que o
ciclo
não tem
fim...
Tem sempre
uma puta
parindo
por aí!
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Eleve-se
Sob o cálice,
o repouso.
Sobre a gota,
a sede.
Entre vontade e misericórdia,
abstração ditada.
Ante o tato,
o juízo.
Adiante o olhar,
o desejo.
Contendo o equilíbrio,
o varal.
Então vem o vento e derruba,
leva consigo!,
extravia e
tudo não passa do ímpeto:
olhos nos olhos
e o desembainhar d'uma espada
com seu vir-a-ser
que pode transformar em lâmina
o grito pétreo em tua garganta.
Jéssica Mendes.
o repouso.
Sobre a gota,
a sede.
Entre vontade e misericórdia,
abstração ditada.
Ante o tato,
o juízo.
Adiante o olhar,
o desejo.
Contendo o equilíbrio,
o varal.
Então vem o vento e derruba,
leva consigo!,
extravia e
tudo não passa do ímpeto:
olhos nos olhos
e o desembainhar d'uma espada
com seu vir-a-ser
que pode transformar em lâmina
o grito pétreo em tua garganta.
Jéssica Mendes.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Parte I - Do Alto da Bela-Vista
Aos olhos comuns, o espaço em que se ambienta esta história, genericamente, poderia ser qualquer um desses vários submundos que a cidade conhece e faz questão de esquecer. E até pelo dizer do poeta, eu-narrador, “é tirar raça, cor e credo/ e genté gente, minha gente”. Mas, hoje, dispenso o verso que não me compraz. Qual sentido de me ater a outro lugar, se é só no Alto da Bela-Vista, onde a vista é nada bela, que nos mora Dona Graça, mãe da menina Isabela?
O Alto da Bela-Vista é um bairro relativamente novo, fora povoado tem volta de um século por uns parentes de Dona Graça, ex-lavradores da baixada – assim o digo porque, naquela época, todo mundo se dava por parente, e se não era mesmo, era aderente, que no final das contas fazia a mesma coisa: metia o dedo no caldo do compadre. O fato é que, por essa data de fundação (de fundamento necessidade), o Alto da Bela-Vista, mais pra só um terrenão do outro lado da cidade, ainda bem atendia às necessidades imperiosas daquela gente - comportava um quintalzinho dois pés de mandioca e meia dúzia de galinhas.
O problema foi que, quando a parentada toda veio se acomodando pelas bandas do Alto, trouxe mulher, prole e mala cheia de discurso pronto. A situação por lá tava braba, dotô, aqui fazemo de tudo um tudo, é só mandar. Os primeiros até deram sorte. Os doutores da cidade, realmente, precisavam de uns “faz tudo” e, também, de umas meninas pra cuidar da casa, da cozinha, das crianças... Só que não tinha era doutor pra todo mundo. Mesmo assim, foi chegando parente que só Deus dá conta de dizer como fez pra repartir n-vezes os quintaizinhos. Pra piorar, assim como Maria das Graças, bebê futura Dona mãe de Isabela, pegou a moda de ir nascendo tantas outras Marias – cada vez menos virgens que a Nossa Senhora - que desse processo todo, o Alto ficou meio apertado.
E digo GRAÇAS! aquela velharada da fundação já estar enterrada e de osso branco. Imagine o desgosto: depois de terem dito bela a vista daquele outro lado da cidade, passaram o tempo, a cidade velha e seus doutores, e o Alto ainda é ‘outro lado da cidade’. Nem mais a vista inspira - daquela época dantes, ficaram só as ruelas com pavimento de chão de terra pedregulhada, sequer motivo de se orgulhar. Os quintaizinhos, como disse, foram se repartindo tanto que o Alto virou um amontoado de casebres espaço de nada, quase caindo um por cima do outro. E se, ao leitor, não for pedir demais, me poupe de uma extensa descrição: acrescente falta, de um tudo.
Era tanta gente pra multiplicar por problema que até Deus se complicava. Se continuasse aquela coisa de todo mundo aparentado, não tardava descer mandamento dizendo pecado tio dar a bença a sobrinho e afilhado – ora, no fim ,o palavreado é sempre o “Deus te abençoe”. Pra sorte e descanso do Divino (não atribua a ele, pelo amor!), foram nascendo uns meninos meio ‘mal-educados’, que de aderentes tinham só a própria vontade e que parentes consideravam os de casa, e olhe lá. Isabela nasceu mais ou menos por aí. Por família, ela e Dona Graça, dona Graça e ela.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
CANCELAMENTO DO SARAU
Nós, Salvadores Daqui, viemos através desta nota tornar público o Cancelamento do Sarau "Os Salvadores Daqui e Convidados", o qual seria realizado nesta sexta-feira, 21, na praça Nauro Machado, e que vinha sendo amplamente divulgado, principalmente, através de canais da rede tais como Orkut e Twitter.
Após refletirmos sobre os moldes do evento a ser realizado, sem qualquer resquício de soberba, admitimos que, devido à imaturidade e inocência do grupo, por pouco não nos submetemos a uma parceria contrária aos ideais primordiais do blogue. Reiteramos, portanto, que Os Salvadores Daqui, apesar do conteúdo sócio-político de muitas de suas poesias, é um grupo literário independente e, tendo em vista a manutenção do vigor de suas poesias, prefere se manter desvencilhado de qualquer partido político.
Pedimos desculpas àqueles que haviam demonstrado interesse em participar do momento proposto e asseguramos que, a partir da experiência adquirida nesta situação, estamos amadurecendo a idéia de realizar um evento cultural que se mantenha fiel aos valores esperados de quem se auto-intitula "Os Salvadores Daqui".
Os Salvadores Daqui
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Prece de dia de feira
Procissão de sorumbáticos
não solidários ao choro alheio.
Lota ruas,
lota avenidas e coletivos
sem algum propósito certo.
Adqüire feição de protesto amorfo
de tão poético que é.
Fáscies que vislumbram
um não-sei-o-quê de esmola.
Sensibilidade é coisa rara.
Valei-me, Nosso Senhor,
livrai-me desse mal por si só inútil,
Amém.
Jéssica Mendes.
não solidários ao choro alheio.
Lota ruas,
lota avenidas e coletivos
sem algum propósito certo.
Adqüire feição de protesto amorfo
de tão poético que é.
Fáscies que vislumbram
um não-sei-o-quê de esmola.
Sensibilidade é coisa rara.
Valei-me, Nosso Senhor,
livrai-me desse mal por si só inútil,
Amém.
Jéssica Mendes.
sábado, 15 de agosto de 2009
delírio em prosa
A miséria nunca morreu. Está viva, arquejando numa laje de favela sob o sol do meio-dia, debruçando-se sobre papelão no chão da esquina e debaixo das pontes e viadutos. Está nas palafitas do rio Anil: engole nossos dejetos e deles se alimenta. Nas avenidas, corrói carnes e ossos e nos apresenta rubra a verdade lancinante nos corpos dos enfermos. Os hospitais estão lotados. E agora? Que outro tratamento procurar senão a medicina do Caos? E assim mendigos se expõem aos nossos olhos atônitos e rolam em cima de nossos medos e nossas angústias, sob os cuidados duma natureza cruel, que os consome para que por fim dêem lugar a outros. A miséria é imortal, infinita. Em seu ciclo de desgraças perpetua-se ao final dos tempos, quando nem mesmo os deuses sobreviverão. Não há regras, leis, ética ou moral para a miséria. Tudo é válido. Sua fome é cega: a fim de alimentar-se, não vê rios ou muralhas que sejam intransponíveis e, contudo, vê a nós, base de sua dieta, alimento preferido da podridão e da nefasta putrefação de nós mesmos. E, dessa forma, vem a nós. Vem carregada de desejo irrefreável, incontrolável, desejo que os homens prometem saciar e, não obstante, jamais saciarão. Sob suas mordidas, seus arranhões e grunhidos, nos arrastamos e subimos uns nos outros, todos lutando pela sobrevivência numa selva que há muito deixou de ser de pedra para ser de labuta humilhante, homicídio, roubo... Mas não, não tardaremos a nos perder entre nossos próprios corpos estendidos. Os caminhos cessaram as bifurcações e todas as saídas estão entupidas pelas fezes arrancadas com sangue dos intestinos. Não nos sujamos. E por isso não nos livramos dos males que nos assolam. A miséria nunca morreu. A miséria é imortal. A miséria perpetua-se num ciclo infinito. Sua sina é viver por entre os homens, e a sina dos homens é viver entre a miséria. O mundo fede nossa fome, nossa sede, nosso delírio de carne e de sangue. O mundo fede porque nós o fizemos feder. Nos envolvemos em pecados e os sete pecados capitais são apenas a entrada de um grande jantar: o prato principal será servido, e aí veremos a grandiosidade dos gigantes esquecidos. Nossa busca impetuosa pelos prazeres há de nos trair. No mundo dos hedonistas o mendigo na rua é deleite. As catástrofes não nos devem alarmar. O mundo sustenta-se com suas leis. Nós somos os inquilinos e o aluguel não está pago: estamos prestes a sermos expulsos e, mesmo assim, continuamos pomposos e não abrimos mão de nossa volúpia mais que exagerada. Esqueçam todas as leis naturais. Esqueçam o mundo e os ambientalistas com sua ladainha de salve o planeta. Salvem-se enquanto é tempo, se já não for tarde demais. Cuidem de suas crias e de suas casas, joguem fora as chaminés das fábricas e ateiem fogo nos carros não pelo planeta, mas pela pele que reveste o corpo funesto da humanidade dissolvida em desgraça. Salvem-se porque o mundo está salvo com a nossa miséria. Nós, apenas nós perecemos e desvanecemo-nos nas fumaças dos canos de descarga e das queimadas nas florestas. Inocentem as divindades. Somos nós as vítimas e os únicos culpados pelos crimes que agora nos assassinam.
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