20 de agosto de 2009

CANCELAMENTO DO SARAU

Nós, Salvadores Daqui, viemos através desta nota tornar público o Cancelamento do Sarau "Os Salvadores Daqui e Convidados", o qual seria realizado nesta sexta-feira, 21, na praça Nauro Machado, e que vinha sendo amplamente divulgado, principalmente, através de canais da rede tais como Orkut e Twitter.
Após refletirmos sobre os moldes do evento a ser realizado, sem qualquer resquício de soberba, admitimos que, devido à imaturidade e inocência do grupo, por pouco não nos submetemos a uma parceria contrária aos ideais primordiais do blogue. Reiteramos, portanto, que Os Salvadores Daqui, apesar do conteúdo sócio-político de muitas de suas poesias, é um grupo literário independente e, tendo em vista a manutenção do vigor de suas poesias, prefere se manter desvencilhado de qualquer partido político.
Pedimos desculpas àqueles que haviam demonstrado interesse em participar do momento proposto e asseguramos que, a partir da experiência adquirida nesta situação, estamos amadurecendo a idéia de realizar um evento cultural que se mantenha fiel aos valores esperados de quem se auto-intitula "Os Salvadores Daqui".

Os Salvadores Daqui

15 de agosto de 2009

delírio em prosa

A miséria nunca morreu. Está viva, arquejando numa laje de favela sob o sol do meio-dia, debruçando-se sobre papelão no chão da esquina e debaixo das pontes e viadutos. Está nas palafitas do rio Anil: engole nossos dejetos e deles se alimenta. Nas avenidas, corrói carnes e ossos e nos apresenta rubra a verdade lancinante nos corpos dos enfermos. Os hospitais estão lotados. E agora? Que outro tratamento procurar senão a medicina do Caos? E assim mendigos se expõem aos nossos olhos atônitos e rolam em cima de nossos medos e nossas angústias, sob os cuidados duma natureza cruel, que os consome para que por fim dêem lugar a outros. A miséria é imortal, infinita. Em seu ciclo de desgraças perpetua-se ao final dos tempos, quando nem mesmo os deuses sobreviverão. Não há regras, leis, ética ou moral para a miséria. Tudo é válido. Sua fome é cega: a fim de alimentar-se, não vê rios ou muralhas que sejam intransponíveis e, contudo, vê a nós, base de sua dieta, alimento preferido da podridão e da nefasta putrefação de nós mesmos. E, dessa forma, vem a nós. Vem carregada de desejo irrefreável, incontrolável, desejo que os homens prometem saciar e, não obstante, jamais saciarão. Sob suas mordidas, seus arranhões e grunhidos, nos arrastamos e subimos uns nos outros, todos lutando pela sobrevivência numa selva que há muito deixou de ser de pedra para ser de labuta humilhante, homicídio, roubo... Mas não, não tardaremos a nos perder entre nossos próprios corpos estendidos. Os caminhos cessaram as bifurcações e todas as saídas estão entupidas pelas fezes arrancadas com sangue dos intestinos. Não nos sujamos. E por isso não nos livramos dos males que nos assolam. A miséria nunca morreu. A miséria é imortal. A miséria perpetua-se num ciclo infinito. Sua sina é viver por entre os homens, e a sina dos homens é viver entre a miséria. O mundo fede nossa fome, nossa sede, nosso delírio de carne e de sangue. O mundo fede porque nós o fizemos feder. Nos envolvemos em pecados e os sete pecados capitais são apenas a entrada de um grande jantar: o prato principal será servido, e aí veremos a grandiosidade dos gigantes esquecidos. Nossa busca impetuosa pelos prazeres há de nos trair. No mundo dos hedonistas o mendigo na rua é deleite. As catástrofes não nos devem alarmar. O mundo sustenta-se com suas leis. Nós somos os inquilinos e o aluguel não está pago: estamos prestes a sermos expulsos e, mesmo assim, continuamos pomposos e não abrimos mão de nossa volúpia mais que exagerada. Esqueçam todas as leis naturais. Esqueçam o mundo e os ambientalistas com sua ladainha de salve o planeta. Salvem-se enquanto é tempo, se já não for tarde demais. Cuidem de suas crias e de suas casas, joguem fora as chaminés das fábricas e ateiem fogo nos carros não pelo planeta, mas pela pele que reveste o corpo funesto da humanidade dissolvida em desgraça. Salvem-se porque o mundo está salvo com a nossa miséria. Nós, apenas nós perecemos e desvanecemo-nos nas fumaças dos canos de descarga e das queimadas nas florestas. Inocentem as divindades. Somos nós as vítimas e os únicos culpados pelos crimes que agora nos assassinam.

9 de agosto de 2009

trombadas, marginais e afins

escravos da miséria,
filhos sem pai
nem mãe.
dejetos da sociedade:
guardam em si
a podridão
da nossa volúpia.
nossa mudez
é escárnio,
piada de humor
questionável.
nossa mudez
é desdém.
nossa mudez
é sinônimo
de estupidez.

4 de agosto de 2009

Condução

Vou poetar o que vejo
e muitas vezes eu nem vejo
na condução de cada dia
É tanta coisa, é tanta gente
que é cenário perfeito pra mais
de dez mil poesias.

Pelo dizer do cabôco
não é tudo passageiro,
menos Deus que é motorista?
E vão o tempo e a cidade
e a moça mais linda que já vi
pelo velho de chapéu
e nem mesmo bom dia.

Mas praquê pressa gente
não é tudo passageiro?

- Menos Deus!, que é motorista.

27 de julho de 2009

A Vida de Esther - O Nascimento



Aos que vivem seus dias de forma igual, aos que esperam o amanhã, aos que apenas vivem, a eles dedico esta história.

Tudo aquilo que buscamos está escondido em cada um de nossos desejos, ocultos, opacos. Poucos são aqueles que desejam de forma clara, que sabem o que buscam e seguem em frente, à procura. Coube a ela, oculta no nome, estrela em vida, mostrar aos seus que ninguém era dela, pois a ela só pertencia o agora.

Esta é a vida de Esther.

Nasceu coroada, sob os olhares daqueles que viriam cultuá-la. Nasceu já incomodada com a atenção que lhe era ofertada, mesmo por tão pouco. "Como é linda, a pequena Esther!", alguém dizia. Seus olhos azuis, de soberba celestialidade, roubavam exclamações unânimes. O fascínio que a pele rosada e aquele par de céus-enormes-redondos causavam era justificado apenas pela necessidade daquelas pessoas de esquecerem seus próprios defeitos e apegarem-se àquilo que poderiam ser. Mas Esther sabia que o que elas esqueciam era, na verdade, de suas próprias qualidades, daquilo que as diferenciava e as tornavam únicas e, por que não, igualmente invejáveis. É engraçado – e ao mesmo tempo triste – como, na vida, tanto tempo é dedicado a aplaudir o espetáculo alheio, esquecendo-se do próprio show. As vidas passam coadjuvando a arte de outros tantos coadjuvantes. Sem o artista não há show! Não há Oscar! E alguém tem que reinar.

Embora coroada, Esther nunca quis ser rainha. Jamais suportou a falsa simpatia de seus amigos de oportuna-hora, muito menos a pomposa inveja de quem lhe parecia menor. Percebeu desde muito cedo que sorrir já significa agradar, não mais agradar-se.

Todo pequeno sinal que pode ser captado no dia-a-dia acaba por construir aquilo que os homens são, aquilo que os ergue e fortalece, ainda que, vagarosamente, aconteçam esses processos. Não dar valor ao tato, não sentir cada pequena fragrância, não ouvir cada bom-dia e não responder ao cumprimento, tudo isso faz com que a vida seja um passeio displicente pelo parque no caminho de ida e volta da escola. É um caminhar cabisbaixo pela irresponsável maneira como os homens conduzem seu fado, como se deixam ser conduzidos.

O primeiro sinal que Esther percebeu - talvez não na ocasião, mas com certeza no decorrer de sua vida - foi que a dor significa estar vivo. É preciso experimentar a dor, é necessário chorar para que os pulmões encham-se com o ar da existência, para sorrir, depois caminhar, correr, pular e, então, cair e chorar novamente e, assim, se reabastecer deste ar. É necessário conhecer o céu e o inferno para ter certeza de que o céu é melhor. Sem a dor não há o gosto - dormente se fica a ponto de furar os próprios olhos e nem sequer perceber como parou de ver.

O que muitos não sabem é que conhecer a dor não significa querer encontrá-la. Dizem que a melhor forma de encontrar algo do qual se passará a vida fugindo é evitando-o. E assim Esther conduziu seus passos. Andou em caminhos que eram ditos seguros, que sabia que a levaria para o leito calmo de um rio, não para um precipício. O balé é um desses caminhos. Leve, suave, delicado. Até as quedas são parecidas com a queda de uma pena ao vento. Então Esther se perguntou:

- Como sinto meu coração?

A sensação do colidir, o pulso acelerado, a boca tentando silenciar a pulsação. Nenhum desses prazeres pode ser encontrado fugindo da dor. É preciso encará-la de fato, ir à sua caça. "Estás louco!", diria ela se pudesse me ouvir. O que ela ainda não compreendia era o espaço que nos separa de nossos medos: ir atrás da dor não significa cumprimentá-la.

Voe, pequena Esther. Esqueça o rio, corra ao precipício. Abra os braços, sinta o vento e o coração bater. Não é o medo de cair: é o estar vivo. Descalce a sapatilha e sinta a terra entre os dedos. Adoeça, chore, quebre a cara, mas, antes, tente! Tente ir atrás do outro lado, da recompensa. Acabe no inferno, buscando o céu, mas não espere que ele desabe buscando você.

E assim nasceu Esther: banhada com o ouro pesado das aparências para purificar-se depois. O homem nasce defeituoso e a vida o conserta. Ou não...