24 de agosto de 2010

Verão

Chuva torrencial
num dia só pro mês inteiro
As goteiras escorrem cachoeiras
os telhados ameaçam ruir.

Não há salvadores com espadas desempainhadas prontos para o combate.
há um moleque que banha na chuva
um moleque maranhense que banha na chuva.

Ê, chuva torrencial
preces a São Pedro
e todo ano se repete a mesma coisa.

- Num dia só pro mês inteiro!

23 de agosto de 2010

mosca na sopa

um grande soluço tem sua aproximação iminente
numa torrente de abstrações indefiníveis e portanto
inimagináveis para os homens de meu tempo. seguido
por um golfo negro vermelho e amarelo de sujeira sangue
e pus onde se deita cansada a cara do mundo respirando
o desejo ancestral de explodir-se num grande e interminável
gozo.

meu número é 016482572001-5 e eu sou mais um entre tantos
rostos anônimos cujo único aspecto que conhecemos é o teor
cadavérico de suas sentenças explicativas. não desejo além do
comercial da televisão. todas as minhas expectativas se resumem
em consumir a degradação de minha espécie em singelas prestações.
obsessivos desmandos me constituíram uma classe inferior, mero
produto do estilo de vida consumista. sou só mais um entre tantos
números, tatuado com a marca da civilização e suas emoções mesquinhas.
apenas um conceito de cidadania passiva que se abriga numa caixa,
entediado com sua condição de excessiva subserviência e preguiçoso
por ter engolido toda a merda que cuspiram em cima de mim. sou só
mais um para não ser ninguém, ser enganado e morrer de raiva deitado
no sofá da sala com a tv ligada.

17 de junho de 2010

Dois poemas ludovicenses

São Luis, 14 de junho de 2010


I

Ao som de tiros na calada da noite, de gritos de fome nos sinais, o teu canto de morte e miséria foi cantado. Há muito o teu povo te suplica: tem pena de mim, São Luis, tem pena de mim! E continuas cantando, afogando lares em pobreza, enterrando jovens no crime... Nas noites de domingo, quando a cidade dorme, sinistros leões saem às ruas à caça de seu alimento: são como envoltos numa nuvem de sonhos, rápidos o suficiente para jamais serem notados. Alimentam-se unicamente de nossa bondade, de nossa inocência e grandeza de espírito; e em seguida vomitam torrentes de lixo e desgraça em nossa garganta; engasgamos, não queremos engolir... mas, já é tarde. E o produto grotesco da putrefação de nossos antigos valores é engolido... Eis o nosso pão de cada dia, eis o que nos sustém e o que nos torna cada vez mais miseráveis e dignos de pena...



II

Agarrada aos teus cabelos
a imagem delicada da destruição
de tuas belezas, o deslumbre
de tua morte suave.
O teu corpo de matas foi invadido,
Derrubado e afogado num
Mar de ferro e concreto;
Nas tuas veias injetaram
A podridão de toda uma
Geração desfeita em ideologias
Vazias, alienada pelas infâmias
Da mídia de massa...
E hoje são os rios de esgoto,
Causadores do teu esfacelamento,
Do teu horror e de tua desgraça
Que te desenham. Entupiram
Cada artéria tua e a tua espera
É já sem ânsia pela morte que
Te espreita...
Mas, não te entrega
Sem uma última batalha,
Sem uma última revolta contra
Os leões que te consomem...
Livra-te dos grilhões que te
Prendem ao solo, põe a faca
entre os dentes, arranca esses felinos
De seus tronos e rasga-lhes as
Gargantas... Deixa escorrer o sangue
Por sobre seus mantos de seda
E te deleita com esse momento,
Pois será este, São Luis, o símbolo
Máximo da tua vitória.

14 de fevereiro de 2010

I
noutros tempos
a poesia,
hoje
um tweet.
em versos não estampo
novidades:
vendo por quilo
poemas em crise.

mas ainda há peito
e pois poeta.
não sou daqueles
bustos bronze em praças
- e que quadrado um que estava lendo,
mas isto é papo pra outro assunto...

II
quanta sujeira decora a cidade!
poluem nossa própria estima...
com moscas disputo meu tira-gosto,
na areia,
calmo caga um cachorro...

pelos becos, se esvaem mistérios.
o lixo se escancara,
o odor exala
e a merda, abunda.

até na praça daquele
poeta, alheio ao povo, mas
dos governantes,
sob os pés nos brota
mais um rio esgoto -
desgosto puro às narinas.

-bem, o povo que se acostume...
a se indignar!

25 de janeiro de 2010

o último vaticínio

a ampulheta quebrou
e suas areias escorrem,
suaves em seu derramamento.
o Tempo passa com pés ligeiros
e nos pisa, nos esmaga,
e nós, homicidas de nossas verdades,
inquisidores de nossa fugacidade,
curvamos a cabeça,
e esperamos pacientemente
por uma absolvição
que jamais virá.
nunca fomos livres
e, não obstante, nunca nos sujeitamos
às ordens ditadas.
a Natureza criou suas leis
sabendo que iríamos ignorá-las.
toda a vida da humanidade
é baseada em ilusões,
em tentativas frustradas
de mascarar sua pequenez
com o orgulho de um fátuo
poder que nós mesmos
nos concebemos e, no imo,
sabemos não ter.
acabaremos, por fim,
e toda nossa arquitetura do vazio
se dissolverá em doces rosas
que sequer lembrarão nossa existência ínfima.
o único legado deixado será
não ter deixado legado algum.
a memória do mundo
é perspicaz em vingança
e esquecimento.
acabaremos, enfim... acabaremos.
e toda nossa arquitetura de vazio
se dissolverá em doces rosas
que sequer lembrarão nossa existência.