28 de maio de 2009

Ékstasis

O homem-cédula com o remoto controle na mão
sentado diante da tevê
te vê na ‘Grobo’
Caipira pira pora
nossa senhora está morta nos canos de descarga
nas bocas de esgoto
na sujeira e no contentamento fingido das cidades
os bolsos da burguesia estão lotados de árvores
de petróleo
de neoescravidão
sua barriga de gordura
sua mente de infâmia
e nós esperaremos ansiosos
até que suas artérias estejam entupidas por moedas de um centavo
e seu peito lotado de infarto.

For mar: lixo
for men: nem isso
é como se não tivesse sido
- Os Orixás assassinados pela Palavra pronunciada nos palanques -
olho por olho dente por dente e um rim por vinte e cinco mil
já não basta estarmos cegos e desdentados...
Nem cem camisas de força impediriam os braços do mundo
para um avião que cai não adianta paraquedas
Nós corremos já sem saber pra onde
e já não temos pernas
nem braços
e mesmo assim nossas mãos brincam com o Acaso
e nossos pés fogem do ocaso do mundo
- de nós mesmos -
e na fuga só tomamos uma bifurcação do caminho
e meia dúzia de êxtase para esquecermos as leis teleológicas
esquecemos de tudo e esquecemos tanto
que daqui a pouco esqueceremos de esquecer.

9 comentários:

Elis A. Martins disse...

Bom, não sei, mas acho que foi uma brincadeira o "remoto controle", muito boa por sinal.
Depois de tudo isso, sobra o nó no estômago e a vergonha de ver o quanto alienante é o mundo no qual estamos. Mas eu acredito que isso vai mudar... Os bolsos estão esvaziando, e quando não sobrarem nem moedas de um centavo, acredito num reinvento. Não sei em que tempo isso, mas com certeza isso irá acontecer, se não por bem, por mal.
Muito bom seu texto! =)

Davi Machado disse...

Formidável
protesto, sarcasmo, esperança mesmo que perdida!

parabéns!

Paulo César di Linharez disse...

remoto controle é coisa de jessica mendes!

Jéssica Mendes disse...

De Calcanhotto! Esquadros! hehehehe *_______*


E o texto tá muito lindo! Tenho orgulho de vocês!

Rômulo Pacheco disse...

Rapaz eu já disse que sou um Hrönir de primeira ordem. Sendo assim, comentários como esse estão latentes em cada texto.

Carlos Emílio disse...

pela janela do quarto pela janela da sala quem é ela quem é ela vejo tudo² remoto controle ahhhhhhhhh.
e outra:
por esse pão pra comer por esse chão pra dormir a certidão pra nascer a concessão pra sorrir por me deixar respirar por me deixar existir
deus lhe pague!
por mais um dia agonia pra suportar e assistir pelo rangido dos dentes pela cidade a zunir e pelo grito demente que nos ajuda a fugir
ahhhhhhhhhhhh
DEUS LHE PAGUE!

TéoMalvine. disse...

[Pra mim isso tudo é quadrado, pela janela no carro, pela do quarto, faz de conta que é lixeiro e joga pela janela da internet...]
Muito bom o texto, garotão.
As pessoas pecam ao ter a esperança de desalienar quando fazem um comentário desse, em seguida desprega os olhos da tela do camputador e vai pregar na da televisão.

Parabéns, Rômulo.
EEEeer, eu também sei
parabenizar quando acho
que merece, cara.

Diego Pires disse...

aceito sua indignação com o mundo, o sarcasmo, e a ironia, e as rimas impulsivas, agora pense comigo, fazemos parte dessa historia, somos isso, mas parece que não quer aceitar isso, és mais um burgues em crise, sem duvidas, entre em greve com o motorista de onibus que pega, lave suas roupas e ajeite seu quarto, mude-se, a indignação é so um passo, apenas um passo.

Cláudio Martins disse...

Você teria sido muito feliz em seu comentário, caro Diego, se não fosse o inconveniente do pré-julgamento existente em "burguês em crise."
São esses tipo de generalizações que calam as bocas e entopem os ouvidos das pessoas.
Indignar-se, por qualquer que seja a razão, por qualquer que seja a posição, é um hábito salutar, que só tem a acrescentar, que seja à coisa atacada, que seja ao opressor.
Mas indignar-se pela indignação de outro, e ainda julgá-lo "burguês em crise", ou é pela síndrome da camisa vermelho e da foice, ou é pela indignação de não ter tato para indignar-se.

Ou ao menos conhecimento de causa...

Infeliz comentário, amigo... mas respeito mesmo assim.